Histórias da Copa do Mundo: Sul-coreanos provocam frustração italiana (2002)

Com a Copa do Mundo de 2022 no Catar prestes a começar neste mês de novembro, estamos fazendo uma retrospectiva da história da Copa do Mundo dos seus momentos bons, ruins e incríveis que permanecem nas nossas memórias até hoje.

A Copa do Mundo de 2002 foi memorável por vários motivos. Por um lado, serviu de cenário para o retorno de Ronaldo depois de ficar afastado por dois anos após uma lesão grave.

Foi também a quinta Copa do Mundo conquistada pela grande nação do futebol, o Brasil, que continua sendo o país mais vitorioso em termos de vitórias em Copas do Mundo.

Para os torcedores da Inglaterra, a Copa do Mundo de 2002 sempre será lembrada como a Copa em que David Seaman ficou conhecido por uma cobrança de falta de Ronaldinho de um ângulo improvável.

Além disso, a renovação de 2002 do principal evento da FIFA será sempre lembrada como a primeira Copa do Mundo na Ásia. Co-organizada pelo Japão e pela Coreia do Sul, a Copa do Mundo de 2002 foi a primeira a ser sediada fora da Europa ou da América do Sul. Quando a primeira bola daquele primeiro jogo foi chutada, a história foi feita.

Nações anfitriãs, não nação

A história foi feita por outro motivo. A Copa de 2002 foi a primeira disputada em dois países separados, com Japão e Coreia do Sul dividindo a responsabilidade de sediar a maior competição do futebol. Dos 24 estádios utilizados, 12 foram no Japão, com os outros 12 na Coreia do Sul.

Sediar a Copa do Mundo instantaneamente coloca pressão, pois sempre se espera que a nação anfitriã tenha um bom desempenho quando cercada pelo conforto de casa.

Tanto o Japão quanto a Coreia do Sul, apesar do que muitos previram, suportam a pressão, indo bem, especialmente no início da competição.

Os sul-coreanos iniciaram a primeira jornada com vitória, vencendo a Polônia por dois gols a zero, graças aos gols de Yoo Sang-chul e Hwang Sun-hong, que jogaram seu futebol na Ásia e, portanto, eram praticamente desconhecidos pelo público mais amplo do futebol.

Na verdade, o XI preferido da Coreia do Sul era em grande parte composto de jogadores desconhecidos em relação ao cenário internacional. Apenas dois jogadores que jogavam fora da Ásia apareceram no primeiro jogo, um dos quais foi o Ji-sung Park, do Manchester United. A equipe também foi gerenciada pelo famoso técnico holandês Guus Hiddink e, com essa liderança, os Tigres da Ásia puderam avançar.

Após a vitória por 2 a 0 sobre a Polônia, os sul-coreanos empataram em 1 a 1 com os EUA, antes de causar uma verdadeira surpresa na terceira rodada, vencendo Portugal por 1 gol a 0, cortesia jogador da Premier League, Park, que marcou um dos gols da competição ao acertar a bola no fundo da trave, antes de cortar com o pé direito a zaga da direita e marcar com o pé esquerdo por cima do Vítor Baía.

Com sete pontos, os sul-coreanos invictos fizeram o suficiente para avançar para as oitavas de final como vencedores do grupo.

Para os japoneses, foi uma história semelhante. Eles também mostraram que não seriam adversários fáceis em casa.

Gerenciado pelo francês Philippe Troussier, que apenas 12 meses atrás havia levado o Japão à final da Copa das Confederações da FIFA, os japoneses tinham uma configuração semelhante aos seus co-anfitriões, pois não tinham jogadores de grandes ligas europeias.

Na época da Copa do Mundo de 2022, a seleção do Japão apresentava principalmente jogadores que jogavam na Ásia, com apenas dois que já tinham se aventurado no futebol europeu de clubes. More daria esse passo depois da Copa.

Primeiro, o time apelidado de Samurai azul enfrentou a Bélgica e, embora tenha vindo de uma desvantagem de um gol ficou desapontado com um empate, Afinal, graças a um gol de Junichi Inamoto, que mais tarde passaria a jogar por vários times da Europa, como West Brom, Galatasaray e Frankfurt, eles mantiveram a liderança até os 75 minutos. Ainda assim, um gol não era o fim do mundo.

O empate acabou por ser a ponte pela qual os japoneses puderam passar quando venceram a Rússia na primeira rodada, com Inamoto novamente a protagonizar marcando o único gol do jogo. Na terceira rodada, eles conseguiram uma vitória por 2 a 0 relativamente simples contra a Tunísia e, com isso, lideraram o grupo.

Sul-coreanos fazem história e também inimigos

Para o Japão, a promessa inicial rapidamente se desfez, transformando-se em desespero quando a Turquia os derrota por um gol a zero durante as oitavas de final.

No entanto, os sul-coreanos continuam. Primeiro, eles venceram a tricampeã mundial Itália, antes de tirar a Espanha da competição também. Depois disso, os jogadores de Hiddink armaram um confronto com os sempre temidos alemães, que se foram bem habilidosos apesar de que sua vitória tenha sido bem apertada, com Michael Ballack marcando o único gol do jogo aos 75 minutos.

Ao chegar às quartas de final e garantir um lugar no playoff do terceiro lugar, onde enfrentaria o Japão, a Turquia, os jogadores sul- coreanos deixaram a sua nação orgulhosa, junto com o s japoneses, criando uma visão totalmente mais positiva do futebol no continente asiatico.

No entanto, não faltou polêmica causada pelos sul-coreanos no caminho para chegar à final.

Ao vencer a Itália nas oitavas de final, os sul-coreanos fizeram história ao se tornar o primeiro país asiatico a chegar à semifinal da Copa do Mundo. Uma conquista notável, especialmente para um país sem histórico cultural de futebol, assim como muitas nações europeias e sul-americanas.

No entanto, ao fazer história, os sul-corenao causaram polêmica e , ao mesmo tempo, fizeram uma espécie de inimigos os quais estavam insatisfeitos, os italianos, que ficaram mais do que indignados com algumas das decisões durante o jogo.

Um jogo de decisões desonestas

Desde o início do jogo, os Tigres asiáticos tentaram avançar e seus ataques estavam causando problemas para os italianos, alguns dos quais receberam cartões amarelos. Após alguns empurrões na área, o árbitro Byron Moreno marcou um pênalti para os co-anfitriões, um pênalti suave. Não se esqueça que isso foi em 2002, quando brigas e puxões de camisa ficavam frequentemente impunes.

Nesse sentido, os sul-coreanos tiveram uma oportunidade de ouro, e coube a Ahn Jung-Hwan aproveitá-la. O atacante fez um passe bem equivocado e de forma sagaz Gianluigi Buffon conseguiu alcançar a bola em seu lado direito.

A equipe de azul estabilizou o jogo e foi à frente quando Christian Vieri marcou aos 18 minutos, mas as coisas rapidamente decaíram para os jogadores de Giovanni Trapattoni.

Lutando para voltar ao jogo, os sul-coreanos arriscaram lances perigosos em todo o campo e aparentemente fizeram isso fora da vista do árbitro Byron Moreno, que não conseguiu punir uma série de faltas merecidas. E o jogo continuou dessa forma.

As faltas de certa forma aumentaram em gravidade, porém o árbitro continuou a manter o cartão vermelho escondido no bolso. Depois de um ataque extremamente perigoso sobre Gianluca Zambrotta no segundo tempo, a Itália foi forçada a fazer uma mudança.

Com o tempo se esgotando e a maioria das decisões parecendo ir contra eles, os italianos se viram defendendo à beira da própria área,quando uma bola mal rebatida por cima, desviou de um zagueiro desatento, caindo nos pés de Seol Ki-Hyeon, que acertou na rede.

O jogo foi para a prorrogação e com a regra do Gol de Ouro em vigor, seria um período bem tenso, especialmente para os italianos que continuaram a ser atormentados pelas decisões de Byron Moreno. Em um desses incidentes, Francesco Totti sofreu uma falta na área sul-coreana. Porém, nenhum pênalti foi marcado e, para aumentar ainda mais a frustração de Gli Azzurri, Totti levou cartão amarelo pela segunda vez e portanto teve que deixar o campo.

Houve então um impedimento muito duvidoso contra os italianos, que pareciam certos de marcar se a bandeira permanecesse abaixada.

Ahn Jung-Hwan celebra seu "gol de ouro" em partida contra a Itália na Copa do Mundo de 2002. Foto: Icon Sport
Ahn Jung-Hwan celebra seu “gol de ouro” em partida contra a Itália na Copa do Mundo de 2002. Foto: Icon Sport

Finalmente, após  116 minutos, veio o Gol de Ouro, e veio através da cabeça de ninguém menos que Ahn Jung-Hwan, que havia perdido o gol quase duas horas antes. De vilão a herói em um jogo absurdo. Antes da Copa do Mundo, o atacante estava emprestado a um clube italiano, mas rapidamente teve seu empréstimo  encerrado e nunca mais jogou na Itália. Em vez disso, o salvador das oitavas de final jogou na França e na Alemanha pelo Metz e pelo MSV Duisburg.

Se você acredita que isso foi corrupção ou simplesmente uma performance terrivelmente incompetente de arbitragem, uma coisa é certa, é fato de que os italianos foram duramente afetados por isso. Os sul-coreanos, que continuaram vistos como herói da casa, tiveram a sorte de passar da primeira partida eliminatória da competição, não há como negar.

Mais polêmica por vir

Após um dos desempenhos considerados mais questionáveis de todos os tempos, certamente no cenário mundial, um número enorme de reclamações caiu sobre a FIFA.

Infelizmente para os co-anfitriões, a controvérsia não terminou por aí, pois eles foram mais uma vez envolvidos em um escândalo durante o confronto das quartas de final com a Espanha.

O jogo foi rápido e furioso, assim como havia sido contra os italianos e embora o árbitro tenha feito um trabalho melhor em termos de punir corretamente as faltas, algumas decisões estranhas ainda foram tomadas. os espanhóis tiveram dois gols anulados, para a grande frustração de seus jogadores.

O jogo terminou em 0 a 0 e, como a prorrogação não foi o suficiente para decidir um vencedor, a partida foi para os pênaltis. Foi apertado, foi tenso, foi uma coisa de doido. Eventualmente, os sul-coreanos prevaleceram quando Hong Myung-Bo marcou após Joaquin ter perdido.

Após o jogo, como havia acontecido com a Itália, houve denúncias de manipulação de resultados e corrupção. Em particular, a mídia espanhola foi atrás dos funcionários, afirmando que eles permitiram que os sul-coreanos saíssem ganhando. Além disso, com sua nação a caminho de casa, o zagueiro espanhol Iván Helguera classificou a partida como um “assalto”.

A Copa do Mundo de 2002 foi uma competição que apresentou ao mundo todas as belezas do futebol asiatico. Ambas as nações anfitriãs proporcionaram momentos de brilhantismo, mas o torneio sempre será, infelizmente, manchado com a memória de partidas com decisões bizarras da arbitragem, especialmente em Daejeon, na noite em que a Itália enfrentou a Coreia do Sul.

Juliano Garcia Juliano Garcia

Apaixonado por esporte, sou um dos criadores do Minha Torcida.